Adulta e autista

Adulta e autista

Toda a vida se explica, desde a infância até o momento que você recebe o diagnóstico.
Você já pode respirar aliviada, porque se sentir diferente de todos não é mais um fardo, agora tem um nome no qual você pode começar a se entender.
Antes você tenta ser qualquer pessoa e de fracassar tantas vezes, você não sabe mais como pode ser.
Porque tentam te anular a todo o momento, mas, agora não porque finalmente você descobriu sua verdadeira identidade: “Autista”.
Depois de ler bastante e descobrir que tudo passa a fazer sentido, começa a surgir a certeza de que tudo vai começar a dar certo.
Você se sente mais satisfeita e percebe que o mundo te recebe de braços abertos… Só que não.
Você é normal demais para ser autista e autista demais para ser normal.
Precisa ser você de verdade pela primeira vez na vida, sem culpa, sem medo, sem mágoas, mas o mundo não deixa.
O sistema de Saúde acredita que você não precisa de apoio psicológico porque já cresceu e não tem mais o que desenvolver.
A não ser que você pague muito bem a um profissional especialista em uma clínica particular.
Ah… quase esqueci: Você não tem dinheiro. Porque você não consegue se manter em emprego nenhum devido ao ambiente não ser adaptado e logo você sente os efeitos físicos disso. Dores de cabeça, estresse, dores musculares, exaustão e sobrecarga são só alguns itens da lista que resolvem te lembrar de que sua vida é feita de sobrevivência.
No ambiente familiar as cobranças continuam: “Você precisa se esforçar mais.”; “Precisa sair mais.”; “Precisa conversar mais.”.
Resumindo… Você precisa NÃO ser quem você é porque as pessoas não gostam.
Os amigos que ficaram, nem sempre têm paciência para escutarem os assuntos que você realmente ama e por isso, as conversas cessam em um piscar de olhos e o silêncio e o tédio toma conta do ambiente.
E como se não bastasse, ainda tem a fila preferencial do supermercado que você, segundo os julgamentos alheios, não é autista o suficiente para frequentar.
Tem as entrevistas da nova vaga de emprego que nunca você passará. E aquele livro legal que você vai ter que deixar para comprar qualquer dia no futuro, se ele ainda estiver na prateleira da livraria.
Tem os olhares atravessados, as falas preconceituosas e como se não bastasse, ainda tem alguém para jogar na conta do rótulo qualquer erro ou acerto que você tiver na vida: “Não conseguiu fazer uma boa apresentação porque tem um problema, é autista.”, “Resolveu aquele problema porque tem inteligência acima do normal, porque é autista.”
Quando você é autista, te medem o tempo inteiro com a régua da “normalidade”.
Um padrão que na verdade ninguém sabe explicar a fundo como funciona, onde a única regra é ser igual, porque o diferente é proibido.
Pensam tanto em como nos moldar e nos transformar em neurotípicos que esquecem que não é uma questão comportamental.
Não é tirando um stim que meu autismo vai embora.
Não é me obrigando a interagir que eu vou entrar em um padrão inventado de normalidade, mas, apenas vou fingir ser o que você exige.
O que é muito diferente de ser feliz.
Meu processamento faz parte de quem eu sou e é ele quem dá sentido à minha vida.
A ilusão de que uma criança autista vai sair do espectro é um perigo muito grande porque alimenta uma negação a nossa condição.
E talvez por isso muitos adultos não têm apoio, porque se negam a olhar para a gente, a ver que crescemos e continuamos autistas.
Crescemos e se o mundo já não era inclusivo quando éramos criança, imagina agora que não existe nada adaptado a nossa idade.
Roupas, ambientes, algo que não tenha uma linguagem infantil ou o maldito quebra cabeças é quase impossível de encontrar.
A única coisa que adaptam a nossa realidade de adultos e autistas são as desculpas para nos anular: “Você não é autista porque trabalha.”; “Seu diagnóstico está errado porque constituiu família.”; “Você nem parece que não é normal.”; “Autista nada, é só timidez.”; “Você não é autista, só não gosta de pessoas.”.
O que a sociedade não enxerga é que não somos nós que precisamos mudar nosso exterior para que o autismo não apareça.
É o preconceituoso e o capacitista que precisam mudar seu interior para que a inclusão aconteça.
E para isto acontecer, basta querer. Para isso sim, é só fazer um esforço.
E hoje, é um ótimo dia para começar.

Nathy (@autista_adulta)

Descrição da imagem: #PraCegoVer
Card com fundo azul escuro com faixa branca centralizada e escrito em azul escuro: AutismoS & Depoimento. Na parte inferior à direita, está a logo do Grupo AutismoS: 4 mãos coloridas: amarela, vermelha, azul clara e azul escura; logo abaixo das mãos, há escrito: autismoS em azul escuro; e na sequência, grupo de apoio educacional