O Autismo Feminino e sua quase invisibilidade

O Autismo Feminino e sua quase invisibilidade

Quando o assunto é TEA, basta uma pesquisa simples para perceber a clara afirmação de que a incidência de autismo ocorre predominantemente em meninos. Mas será mesmo?

A cor utilizada como símbolo do TEA, é azul justamente porque as estimativas sempre apontaram uma ocorrência muito maior do transtorno em meninos.

E assim, nossas meninas crescem e se tornam mulheres sem nenhum diagnóstico formal, que lhes garanta terapia, apoio, compreensão.

Hoje é muito comum vermos relatos de mães de filhos autistas que se reconhecem nas atipicidade deles e saem em busca de resposta.

O lamentável é que nem sempre encontram.

Essas mulheres muitas vezes têm o diagnóstico negado ou negligenciado sob alegações de que levam uma vida funcional:

-"Você superou suas dificuldades, conseguiu até se formar!"
-Você viveu até hoje sem diagnóstico, por que se preocupar com isso agora?"

São algumas das frases que corriqueiramente, muitas mulheres escutam ao terem negado seu diagnóstico.

E sem diagnóstico, não há resposta, não há tratamento, não há identidade.

E se é lamentável o fato de não encontrarem resposta, mais lamentável ainda é pensar que ao longo da vida, muitas dessas meninas e mulheres recebem "outros" diagnósticos erroneamente. E o que dizer das medicações erroneamente prescritas ainda na infância, enquanto tentativas vãs buscam explicar seus comportamentos "diferentes" , suas dificuldades, suas sensibilizações?

Depressão, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno bipolar, fibromialgia; são alguns dos diagnósticos recebidos.

É importante frisar que muitas vezes esses transtornos e doenças podem ser, na verdade, comorbidades do autismo existente e não visto.

Mas o que poderia explicar esta quase invisibilidade do TEA em meninas e mulheres?

Uma das explicações mais aceitas seriam as habilidades de camuflagem e mascaramento dos comportamentos e características próprios do TEA que as mulheres acabam por desenvolver ao longo de suas vidas.

E se falarmos de autismo em grau leve, as chances de um possível diagnóstico diminuem ainda mais.

Meninas e mulheres autistas leves, por conta das características próprias deste nível de suporte, acabam por encontrar uma barreira quase intransponível à sua frente.

O autismo leve é cheio de "sutilezas", de "detalhes", e disso, nós mulheres entendemos bem!

E diante das incertezas, do medo da não aceitação, da necessidade e desejo de se adequar, de serem aceitas, pra tentar escapar dos rótulos e do bullying; estas meninas e mulheres seguem se camuflando, imitando outras meninas e mulheres na tentativa de serem o mais típicas possível.

E se machucam, e se anulam, e deixam de ser quem realmente são, e sofrem. E têm depressão, ansiedade, fibromialgia...

As perguntas que ficam são: Até quando essa "invisibilidade" vai existir?

Será que um dia a "cor do autismo" deixará de ser só o azul?

Enquanto isso, estas meninas e mulheres se vestem do verde da esperança!

Esperança de que um dia serão vistas como realmente são e terão seu diagnóstico e sua resposta.

Esperança!



Jeane Rodrigues
Psicopedagoga Clínica e Institucional.
@psieducarjeane