Educação inclusiva é gente sendo ouvida.

Educação inclusiva é gente sendo ouvida.

Educação inclusiva é gente sendo ouvida.
Por Pedro Ferreira
Psicólogo
Formador do Instituto AutismoS

Trabalhava na escola quando conheci aquele menino emburrado fazendo pose de tartaruga. Agarrado em suas pernas, com seus joelhos esganando o peito, apertou tanto o rosto que só amargura passava. Sofria daquilo que não se entende, dessa coisa de ser gente. Era uma criança solitária de família e com dolorido de pessoa.
Seu receio não tinha recreio. Permanecia sentado no cinza do pátio, tramando. Participava do intervalo olhando desconfiado, como que sem querer querendo. Sua pele é morena de sol e seu cabelo escuro de noite. Tinha quase a altura da perna de um adulto crescido. Era conhecido como violento e desconhecido como violentado.
Chega o dia em que se coloca a correr da escola dentro da própria escola. Ele dispara em direção aos muros com a esperança de que rompam e salta contra as cercas torcendo que cedam. Pouca gente viu seu intento. Quase ninguém presenciou sua tentativa. Não houve quem tentasse dar pé. Todos souberam de seu fracasso. Como de costume, suas pernas não alcançaram. Derrotado, foi se esconder no próprio corpo. As pessoas tem o tamanho de sua solidariedade.
Entocado nele mesmo, sentou no canteiro sujando o que restava de limpo na sua bermuda. Escondeu o choro entre as pernas, deixando que as lágrimas desaguassem no chão. Não quis que o vissem chorando, mas queria ser visto não querendo chorar. Deixaram que chorasse em seu canto, pois - homem não chora, essa raiva aguada amarrando a cara é só marra.
Esperei até sua última gota de lamento e que de seu casco ele saísse para o convidar a ir até o parque. De olhar grave, sua sobrancelha era um risco bravo. Sem dizer nada que não fosse braveza, riscou a areia do balanço com seu tênis rasgado, tomou embalo e, calado, a saltou furioso. Cansado, de calçados estofados de areia, passou a desenhar no chão com um graveto torto até formar uma pessoa com dois braços, duas pernas, uma cabeça, dois olhos e nenhuma boca.
Quando nossas formas de cuidado não escutam, os sentimentos emudecem. Há modos de ouvir que não compreendem certas maneiras de dizer. Então, é comum que vozes se calem e bocas se selem. Porém, não há vivente que aguente tal violência. Todo vivo esperneia, debate, arrisca e incendeia como a criança que não encontra quem a acolha.
Trabalhamos juntos por sua autonomia. Ele, criança, continuou na escola. Eu, adulto, parti. Não sei para onde o menino foi, apenas sei onde ele não queria estar. O desemparo que encontrava em casa também foi vivido na escola. Espero que, como tantos e tantas, ele tenha encontrado abrigo e crescido acolhido.
Enquanto nossos cuidados, acolhimento e ensino forem tentativas de adequar comportamentos em nome de resultados, metas e currículos, apenas existirá espaço para um humano – aquele que se adequa, o conformado, espremido em folhas de pagamento. A única adequação saudável ao ser humano é ser acolhido sendo tão peculiar quanto é. Inclusão é solidariedade.