Ano Novo

Menos um ano para mim, mais um ano para nós.

Menos um ano para mim, mais um ano para nós.
Por Pedro Ferreira
(Formador do Instituto Autismos; Psicólogo na Educação CRP-12/17078; Mestrando em Educação)

Faz duas semanas que tenho deixado este texto para depois. E, finalmente, sentei-me para escrevê-lo, porque quero parar de contar. Viver em função deste depois não é estar em devir, mas devendo. E vendo que é chegado o momento de refletir sobre o que vi neste ano, escrevo. Nenhuma promessa tem a força de superar o que passou, porque o ontem é de sempre continuar passando, porém, repetir e elaborar as vivências é um exercício necessário para que a vida não seja vivida como uma paródia.
Neste ano, nossos dias não passaram, eles se perderam. Caíram feito dentes moles. De morte em morte, mais de 600 mil partes, pares e amores foram perdidos. E, junto da covid, a fome, o racismo, a homofobia, a transfobia, a misoginia, a desigualdade e todas as outras violências socialmente toleradas seguiram ceifando gente sob a tutela de um estado que toma a morte como qualificação. “Minha especialidade é matar, não é curar ninguém”.
Na educação, encontramos possibilidades de reinvenção. Profissionais do ensino e aprendizagem se depararam com a necessidade de criatividade ao lidarem com uma realidade que, questionando a função social da escola, demonstrou o alcance extraclasse de todo vínculo e prática em Educação. Além disso, famílias também estiveram ainda mais implicadas na formação acadêmica de seus filhos e filhas de modo a fazer evidente que famílias engajadas e em contato com suas respectivas escolas tanto colaboram com os ganhos individuais da criança e adolescente quanto fortalecem a comunidade escolar. Ainda que tenha obrigado desencontros, bons encontros foram possíveis. O ano de 2021 torna possível enxergar as potências de um coletivo conscientemente engajado.
Portanto, ainda elaborando os rastros e restos deixados por este ano, para meus colegas e minhas colegas autistas, suas famílias, amigos e amigas, desejo tudo aquilo que me faz contente e também os deixa feliz. Para você que não está em nenhuma dessas partes, também, toda felicidade possível. Que toda luta exigida seja querida; e todo combate, pensado com ternura. Que a raiva não faça ressentimentos, mas, pelo contrário, que produza movimentos transformadores. Que estejamos unidos e unidas pela vida.



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Menos um ano para mim, mais um ano para nós.
Por Pedro Ferreira
(Formador do Instituto Autismos; Psicólogo na Educação CRP-12/17078; Mestrando em Educação)

Faz duas semanas que tenho deixado este texto para depois. E, finalmente, sentei-me para escrevê-lo, porque quero parar de contar. Viver em função deste depois não é estar em devir, mas devendo. E vendo que é chegado o momento de refletir sobre o que vi neste ano, escrevo. Nenhuma promessa tem a força de superar o que passou, porque o ontem é de sempre continuar passando, porém, repetir e elaborar as vivências é um exercício necessário para que a vida não seja vivida como uma paródia.
Neste ano, nossos dias não passaram, eles se perderam. Caíram feito dentes moles. De morte em morte, mais de 600 mil partes, pares e amores foram perdidos. E, junto da covid, a fome, o racismo, a homofobia, a transfobia, a misoginia, a desigualdade e todas as outras violências socialmente toleradas seguiram ceifando gente sob a tutela de um estado que toma a morte como qualificação. “Minha especialidade é matar, não é curar ninguém”.
Na educação, encontramos possibilidades de reinvenção. Profissionais do ensino e aprendizagem se depararam com a necessidade de criatividade ao lidarem com uma realidade que, questionando a função social da escola, demonstrou o alcance extraclasse de todo vínculo e prática em Educação. Além disso, famílias também estiveram ainda mais implicadas na formação acadêmica de seus filhos e filhas de modo a fazer evidente que famílias engajadas e em contato com suas respectivas escolas tanto colaboram com os ganhos individuais da criança e adolescente quanto fortalecem a comunidade escolar. Ainda que tenha obrigado desencontros, bons encontros foram possíveis. O ano de 2021 torna possível enxergar as potências de um coletivo conscientemente engajado.
Portanto, ainda elaborando os rastros e restos deixados por este ano, para meus colegas e minhas colegas autistas, suas famílias, amigos e amigas, desejo tudo aquilo que me faz contente e também os deixa feliz. Para você que não está em nenhuma dessas partes, também, toda felicidade possível. Que toda luta exigida seja querida; e todo combate, pensado com ternura. Que a raiva não faça ressentimentos, mas, pelo contrário, que produza movimentos transformadores. Que estejamos unidos e unidas pela vida.