Autismos e transtornos de ansiedade

Autismos e transtornos de ansiedade

Autismos e transtornos de ansiedade
Pedro Ferreira

O mecanismo orgânico da ansiedade

A ansiedade enquanto uma organização da descarga de estímulos contidos no corpo é um fenômeno biologicamente constatável e observável em diversas espécies. Entretanto, compreender a ansiedade enquanto manejo biológico da tensão provocada pelo ambiente sobre o organismo consiste em uma das dimensões possíveis de serem exploradas e estudas através do fenômeno. Uma abordagem que pretende realizar uma aproximação íntegra da experiência humana no alcançável de nossos modelos de compreensão deve tomar uma direção que a localiza além da constituição física do corpo, também insistindo em sua dimensão histórica, social e afetiva.
O corpo não consiste somente em reação, ele é construção. A ansiedade enquanto reação ao estresse ambiental é de natureza funcional, o corpo toma seu porte defensivo irrigando vasos sanguíneos e liberando o hormônio cortisol, atentando o organismo aos possíveis perigos que ameaçam a estabilidade e vida do indivíduo. Assim, em prontidão, o indivíduo está supostamente preparado para reagir ao que intenta contra sua vida e bem-estar. Ariscos e ouriçados, estamos a postos para correr, lutar ou paralisar.
Portanto, considerando a inevitabilidade da ansiedade enquanto resposta orgânica ao estresse, podemos nos questionar sobre o que configura um transtorno de ansiedade como pânico, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno de estresse pós-traumático e fobias.
Afinal, como o natural toma contornos de patológico?

A função psíquica da ansiedade
A ansiedade acontece num corpo que não é habitado a sós. Biologicamente, a função da ansiedade é acionar nossos mecanismos de combate e fuga diante de prováveis ameaças. O sangue expandido atende o corpo. Psiquicamente, o corpo biológico é integrado a um circuito de símbolos e imagens que compõem uma linguagem de modo que a angústia altera nossas relações de proximidade, percepção e projeção no tempo. Os perigos dos quais nos protegemos não ameaçam apenas ao corpo, mas também a sua imagem. Como postulou Freud, é função do Ego preservar o Eu.
Jacques Lacan utilizou o seguinte cenário para ilustrar o conceito de angústia:
Imagine que você está em frente a uma Louva-Deus fêmea, um inseto que, por suas razões não tão conhecidas, costuma devorar seu parceiro durante o sexo. E você está usando uma máscara de Louva-Deus, porém, você não sabe se sua máscara é de um macho ou uma fêmea. E assim, também não sabe qual será comido ou não porque você não sabe como a criatura em sua frente te enxerga.
Dessa maneira, Lacan descreve a ansiedade através da figura da angústia como “a sensação do desejo do Outro”, como o desconhecimento daquilo que o Outro espera de nós. Ele desloca a angústia do tempo cronológico e a coloca numa temporalidade lógica em que a questão não é – o que irá acontecer, mas, o que o outro quer de mim? Nessa dimensão psíquica, a proximidade em que a ansiedade insiste não é a com o futuro, mas com o desejo do Outro.
Em psicanálise, a ansiedade não está na falta ou perda de algo, mas na intensa proximidade do desejo do Outro. Ansiedade acontece quando o que falta é a própria falta.

Pessoas autistas e transtornos de ansiedade:
Diferente de algumas suposições populares, o autismo não é uma constatação da última década e a crescente do diagnóstico não se deve a uma simples correlação de causa e efeito. Ainda que aparente novidade para determinados segmentos da sociedade, sua visibilidade em muito se deve a segmentação de um paradigma moderno e ocidental de família e criação de filhos e filhas amparado em avanços sociais e tecnológicos. Atualmente, o autismo faz questão. O que há de recente no autismo é que em nossos dias, perante a lei, diante de nossas éticas, práticas clínicas e afetos, autistas são pessoas de direito, pessoas que nos importam, que dizem, fazem e brigam.
O autismo é uma condição singular de sensibilidade sensorial. Pessoas autistas são hipersensíveis ou hiposensíveis a determinados sons, cheiros, sabores, toques, frequências e sensações. O que faz com que seu modo de vivenciar o mundo seja outro, distinto daquele consensualmente típico. O corpo e sua relação com a linguagem é outra porque o agudo do mundo cutuca os ouvidos e esburaca a pele causando desconfortos que demandam outra maneira de organização física e psíquica. Tal sensibilidade pode ferir e, quando feridos, utilizando dos recursos disponíveis, pode desencadear maneiras rígidas e intransigentes de preservação, organização e estabilização. O autismo é outra maneira de experenciar o corpo.
Partindo do pressuposto de que o autismo é outra forma de organizar e experenciar o próprio corpo diante do outro, cabe buscar compreender como é experenciar a ansiedade nesse corpo atípico. Devido sua sensibilidade, o corpo está mais suscetível ao ambiente e suas contingências.
Dessa forma, há uma predisposição a rigidez no manejo dos estímulos ambientais, pois a lida com variáveis estressoras é tamanha que o esforço para lidar com todas, muitas vezes sem o auxílio da linguagem verbal e alegórica, é muito desgastante e cansativa. Tal dificuldade pode desencadear ansiedades que, quando não tratadas, podem produzir sintomas e transtornos de ansiedade. Aqui, pretendo destacar a relevância de compreender os autismos enquanto condição e organização do sujeito humano que, como qualquer outra, está suscetível a embaraços e complicações que podem ou não produzir impedimentos em seu desenvolvimento biológico e psíquico.
A ansiedade não é o autismo, mas a pessoa autista pode ser ansiosa. Portanto, se faz necessário a construção de repertório do sujeito para lidar com cenários, espaços e estímulos ansiogênicos considerando os desencontros da pessoa autista com a linguagem enquanto signo do laço social. A ansiedade, palavra originada no termo angústia que no grego tem sua origem na ideia de “algo apertado”, “falta de ar” ou “afogar”, demanda a elaboração de ferramentas físicas e psíquicas que permitam a descarga da pressão que afere o corpo o “apertando”. Por essa razão, encontraremos pessoas autistas desenvolvendo seus próprios métodos de regulação através de comportamentos altamente repetitivos chamados de “stim” que podem ser funcionais e sustentáveis ou prejudiciais para sua saúde e integridade física.
Logo, proponho que pensemos a recusa da pessoa autista à demanda do outro não apenas como reflexo fisiológico ou reação bioquímica, mas, também, proteção afetiva. É na distância que a sensibilidade faz casca. Por essa razão, não há pessoa que seja idêntica e cada pessoa é singular. O autismo é uma condição que questiona – o que podemos fazer a partir disso?