Depoimento Michele Malab

Depoimento Michele Malab

Sobre João...
João é autista..
Não. Eu não conheço o João deste texto, mas resolvi dar esse nome a tantos outros que conheço que poderiam facilmente serem confundidos devido a semelhança da história.
O que João quer? O mesmo que tantos outros, de diversos nomes e lugares querem... O DIREITO DE PERTENCER!
Os pais de João pagam caro por um plano de saúde que quase nunca usam.
Aos dois anos de idade os pais de João são chamados na escola pois as professoras estão preocupadas com seu desenvolvimento - João está com a fala atrasada, não interage com os colegas, não obedece a comandos, não olha quando chamado, apresenta um comportamento explosivo quando contrariado, se frustra com muita facilidade, é muito apegado a detalhes e à rotina.
Durante a conversa com os pais a professora questiona se João tem acompanhamento com um pediatra e se esse (a) não sinalizou um possível atraso no desenvolvimento.
A mãe então explica que SIM, João vai periodicamente ao pediatra pois tem plano de saúde e que este NUNCA mencionou nada a esse respeito.
A CURVA ABC de João está dentro da média.
A professora então sugere voltar ao pediatra para verificar um possível atraso de desenvolvimento.
Os pais, assustados, tão logo saem daquela reunião já agendam uma consulta para dali a 2 meses ( é o único horário disponível ).
A mãe ainda questiona a atendente e escuta "se for uma urgência a Sra. Pode procurar um PA". Vencida, o jeito é esperar os dois meses.
No dia da consulta o pediatra olha para João e o examina com procedimentos padrões que se encaixam nos seus 20 minutos de atendimento. Ao final da "consulta" e após muita insistência dos pais faz anotações na guia verde e encaminha para um especialista, ele não pode ajudar.
Já de posse do papel rabiscado a mãe liga para a central do inferno e é informada que a data disponível para um especialista é de 90 dias.
...e João continua. Volta para a escola, à espera de algo mais.
Passados 90 dias a consulta com o neuro(a) que após 30 minutos de atendimento não se sentiu confortável para fechar um diagnóstico, afinal, João é muito novo. Pra quê rotular?
Mais uma guia para um colega psiquiatra avaliar João. E outras guias com exames.
Mais 60 dias para uma consulta.
O bom Dr. Dessa vez por ser mais experiente ou pelo fato de João já ter passado por outras mãos e com exames a tira colo, resolve enfim dar um diagnóstico.
João é autista.
O tratamento consiste em intervenção multidisciplinar mas as guias que é permitido ao Dr. emitir são para as especialidades de fonoaudiologia e psicoterapia. 2 guias distintas.
A mãe de João liga novamente para a central.
Ela é especialista em João mas leiga em autismo. Não sabe que existem terapias especificas para o que João precisa. A atendente também nada sabe. Nem de autismo e muito menos de João. Marca algumas sessões, depois a mãe deverá fazer novamente a via sacra para conseguir mais guias. Deixa marcado também o retorno ao médico para pegar as benditas.
Enfim há uma esperança.
João terá a ajuda que precisa, assim se espera.
Será um presente dos deuses ouvir João lhe chamando de mãe, brincando com as outras crianças, comendo melhor, dormindo 8 horas por dia.
Chega o dia da primeira consulta. Psicoterapia.
A mãe estranha a sala fria, poucos brinquedos. Mas...deve ser assim mesmo. O que ela sabe ? Nada daquilo. Só sabe de João. A terapeuta diz que vai trabalhar o protocolo indicado para o autismo, que é o caso de João. ABA. A mãe disfarça uma risada, pois aba que conhece é o conjunto musical. A mãe sai da sala a pedido da terapeuta, que retorna após 30 minutos devolvendo João.
Até a próxima sessão, mãe! - ela diz - daqui a uma semana.
A mãe sai dali feliz. João está fazendo ABA. Uma vez por semana! - conta para a professora.
E assim...semana após semana João continua...
João ainda não fala.
João ainda não interage conforme o esperado para uma criança da idade dele.
João não dorme bem.
João tem seletividade alimentar.
João tem tudo o que tinha desde a primeira suspeita levantada pela professora.
Só uma coisa João não tem mais da mesma forma: TEMPO.
João continua....
Essa história é de Joãos, Pedros, Julias....
É a história de que tudo pode ser bem diferente quando oferecemos ferramentas de desenvolvimento e crescimento.

Michele Malab
Escritora