Uma mensagem aos Professores

Uma mensagem aos Professores

Uma mensagem aos professores.
Por Gabriela Bonotto Venâncio

Olá professores! Tudo bem? Aqui está o meu relato, de uma estudante autista no ambiente escolar.

Durante toda a minha vida escolar, eu não fui uma "aluna-problema". Eu não tinha problemas de comportamento, respeitava os alunos e os professores e tirava as notas mais altas da turma. A escola e meus docentes me viam como uma estudante ideal. Sem qualquer tipo de dificuldade. Mas, não era bem assim.

Nos primeiros anos do jardim de infância, algumas coisas já eram notáveis. Meus stims/estereotipias, minha dificuldade em socializar com as outras crianças e também minha rigidez cognitiva (necessidade de seguir sempre a mesma rotina e o mesmo padrão). Algumas situações envolvendo os stims envolvem o bullying. As crianças viam que um colega autista (já diagnosticado) fazia os mesmos movimentos que eu, balançando as mãos como forma de regulação e quando estávamos animados. Nós ficamos conhecidos como "um casal", em que os dois tinham o mesmo "problema", segundo as crianças.

Uma situação envolvendo rigidez cognitiva + socialização aconteceu quando eu me recusei a brincar com outras crianças num tabuleiro de jogo de aparência diferente ao que brincava com a minha mãe, em casa. Eu gostava do fato de termos hora do lanche e logo me adaptei a sempre ter horários específicos. Qualquer imprevisto me deixava (e deixa até hoje, na verdade) desregulada.

Outro ponto a se notar é a seletividade alimentar. Eu ficava espantada em como as outras crianças comiam qualquer comida que davam para elas de lanche. Meu pesadelo era quando davam espigas de milho, que é um alimento que não gosto mesmo. As outras crianças me provocavam e perguntavam se eu não iria querer, mas eu preferia ficar com fome a comer aquele alimento tão intragável para mim. Eu sempre fui muito restrita com os alimentos que como. São poucas as coisas que eu realmente gosto. É uma sensação horrível ser obrigada a comer um alimento que tem uma consistência, cor, aparência ou cheiro que me cause enjoo.

Passando para o ensino fundamental, foi ali que as características ficaram ainda mais perceptíveis. Eu não sabia como socializar com outras crianças. Todas as vezes que eu tentava, não conseguia. Minha voz era sempre baixa e ninguém conseguia me entender. Eu não conseguia descrever o que estava sentindo em momento algum. O bullying e o isolamento me fizeram ser mais reclusa ainda. Eu passava os recreios na biblioteca, já que meu refúgio eram os livros. Preferia falar com os adultos, com quais eu sentia maior identificação. A única hora em que alguma criança falava comigo, era pra pedir um pouco do meu lanche, ou para pegar algum material emprestado. Fora isso, o silêncio reinava em todos os meus dias de aula.

Na fase da puberdade, consegui camuflar várias de minhas características e arranjei algumas amigas. Nós éramos as excluídas do colégio. As outras pessoas fingiam que nós simplesmente não existíamos. "Camuflar" e "adaptar" foram meus mantras naquela época. "Eu tenho que ser o mais normal possível", eu pensava. Isso teve um efeito terrível em minha saúde mental, que desencadeou uma crise no ensino médio. Foi nessa época que tive o diagnóstico de autismo. Tentamos fazer o meu colégio na época entender mais sobre e me incluir, pela primeira vez, de verdade. Mas, eles preferiram me pedir com gentileza para me retirar da escola, já que não sabiam como lidar comigo. Tive que mudar de escola, em que passei os últimos anos do ensino médio. Quando comentamos de fazer uma conscientização sobre o autismo com a minha turma, a coordenadora disse que isso não era preciso, já que meu autismo era "muito leve" e ninguém nem ia perceber. Por favor, não façam isso. Não sejam como esses colégios, como esses coordenadores. Não culpo de maneira nenhuma os docentes ótimos que passaram pela minha vida, mas estava claro que eles não estavam preparados para lidar com uma pessoa autista. Por isso, eu vou comentar os pontos importantes dessa história e dizer de que forma os professores, a coordenação e toda a escola poderiam ter feito diferente, e talvez, ter poupado bastante sofrimento e caos para mim.

A rigidez cognitiva foi citada desde o jardim de infância, mas continua comigo até hoje. Tentar manter o equilíbrio, com uma rotina viável para o autista, os professores, e os pais, é muito importante. Deve haver uma maior comunicação entre a escola e os pais, de forma que o processo do estudante autista seja respeitado. A psicoterapia é essencial e deve ser estimulada, e caso a criança faça esse processo, uma conexão escola-pais-psicólogo deve ser considerada, já que tem muitas coisas boas a acrescentar na vida dos autistas. Essa conexão possibilita a melhor visualização das necessidades do estudante, o que auxilia em tornar a escola um ambiente positivo. A rigidez cognitiva, no meu caso, é atenuada pelas terapias (em que temos o estímulo a processos novos para o autista). Mas a escola também deve fazer sua parte, cumprindo com os combinados e avisando (quando possível) sobre mudanças na rotina ou no ambiente. De acordo com as necessidades do autista, essa mudança varia desde uma quebra de rotina grande, como por exemplo uma excursão, até uma mudança considerada por muitos como minúscula, como fazer uma decoração diferente na lousa. Tudo depende da pessoa.


Nos anos iniciais, eu já me deparei com o bullying. Essa situação é extremamente grave, e gerou problemas horríveis tanto na época quanto agora, no futuro. Às vezes é tão sutil, que os professores não conseguem notar. O isolamento de uma criança autista, quando ela queria na verdade estar fazendo amigos, é muito triste. Eu, infelizmente, só consegui contar todo o bullying e o sofrimento que eu passei esse ano para minha família (18 anos). Mas é um sinal de alerta ver o estudante autista totalmente isolado. Uma pergunta importante é se os autistas querem fazer amigos. Cada autista tem características diferentes, mesmo estando no mesmo espectro. O que era interpretado pelas pessoas à minha volta como "querer ficar sozinha" na verdade era a vontade de fazer amigos silenciada pelas humilhações e pela baixa autoestima. É importantíssimo notar os sinais de bullying e isolamento, pois pode gerar danos irreparáveis a qualquer pessoa.

A conscientização da turma, que eu falei anteriormente, vai de cada caso. Se o autista/os responsáveis não tiverem interesse em conscientizar a turma sobre o autismo (muitas pessoas não veem necessidade), está tudo bem. Foi mais no meu caso mesmo, que achamos uma boa opção depois de uma conversa com a minha psicóloga. Novamente, reforço a importância de uma boa comunicação entre a escola e os responsáveis.

Também é necessário enxergar o estudante além das notas e resultados, identificando problemas de socialização e buscando, como eles falam, a "raiz" dessa dificuldade. No meu caso, foi um misto do bullying que eu sofria, o isolamento, e também a minha dificuldade em manter diálogos.

E por último, uma mensagem final para os professores:
Muito obrigado por tudo, professores. Especialmente aqueles que buscam sempre aprender, incluir e se atualizar.
Vocês podem fazer uma grande diferença positiva na vida de várias pessoas autistas, eu tenho certeza disso.