AutismoS & Comorbidades

AutismoS & Comorbidades

Por Pedro Ferreira

Ainda que a aproximação de temas como os autismos demande a sensibilidade de quem se debruça sobre o outro, é preciso a atenção de um olhar familiarizado com a crítica. Todo desenvolvimento diagnóstico tem a proporção de um dado histórico enquanto realização e construção socialmente orquestrada para cobrir as especificidades de determinadas demandas a partir da atribuição de nomenclaturas que auxiliem o manuseio prático e teórico da realidade.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) em sua dimensão diagnóstica, clínica e manual, é um construto social que condensa valores, impressões e acordos em seu desenvolvimento histórico. Os processos de atribuição massiva de diagnósticos para indivíduos em condições particulares se deslocam e regulam através de crivos explícitos e implícitos que podem ser localizados na história da mesma maneira que é possível constatar outros deslocamentos da razão médica na elaboração de manuais diagnósticos durante as últimas décadas.

A razão diagnóstica enquanto artifício indispensável para a prevenção, manejo e desenvolvimento de trabalhos e atividades na saúde e educação de crianças, adolescentes, adultos e idosos autistas é ferramenta que exige tanto apuro técnico quanto sustentação ética. Diagnósticos carregam tanto classificações psiquiátricas, descrições e prognósticos quanto esperanças, fantasias e histórias. Nenhum fato clínico existe aquém da sociedade sobre a qual a clínica está fundada e justificada. Diagnósticos contém em si aspectos de apreciação e precisão técnica, mas também o incontornável aperto da razão médica enquanto fato clínico, jurídico, científico, genético, pessoal e até mesmo religioso em determinadas realidades. A função social do diagnóstico está para além da clínica e toca questões de âmbito socioafetivo e político.

O apreço diagnóstico em consonância com uma razão médica colonizada por uma lógicaimperialistas (mercantil e expansiva) tem como efeito a manutenção do papel social do especialista em detrimento da construção do saber pessoal sobre si e seus próximos. A ciência enquanto tecnologia e intelectualidade formatada e articulada com interesses construídos através de uma ideologia neoliberal é potencialmente exclusiva e conservadora de modo que tem como função a expansão de uma razão tecnicista que compreende o sujeito como um mutável adestrável. Com efeito, uma razão diagnóstica operada a partir de tal ótica, transmite o diagnóstico enquanto verdade e o sujeito como não verdadeiro.

Ainda que o autismo ocupe a categoria de espectro como indicativo de mobilidade e flexibilidade diagnóstica, a compreensão e distribuição massiva de diagnósticos de autismo como um dado irretocável realizam uma sútil repartição entre o sujeito e o autismo tratando o espectro como ente que transtorna. E assim, desautoriza a compreensão do autismo enquanto maneira singular do sujeito experenciar e organizar opróprio corpo. Logo, a experiência de vida da pessoa autista ocorre limitada por suas bordas diagnósticas e não devido as limitações incontornáveis da própria condição humana. O autismo passa a fazer sofrer em retrospecto ao que “poderia ser se” e não em relação ao possível.

Portanto, não demora para que a experiência autista esteja reduzida ao autismo, desconsiderando as particularidades da experiência humana em sua universalidade em prol de um individualismo alienante contido em uma razão diagnóstica afetada por um discurso socioeconômico. O que é perdido nesse movimento a uma aproximação crítica e atenta ao sofrimento social da pessoa autista e os desdobramentos psíquicos, sensoriais e somáticos de sua condição em comorbidades localizáveis, tratáveis, discutíveis e humanas.